domingo, 10 de novembro de 2019

ENCONTROS E DESENCONTROS

A convivência de cento e cinquenta homens num espaço confinado durante cerca de dois anos, em condições por vezes deploráveis, nem sempre foi fácil. Valeu a resiliência dos portugueses à adversidade e a ignorância política moldada pelo regime de então. A comida era sempre escassa, a água nem sempre estava em condições de beber, a dormida era, em alguns quartéis da Guiné, em abrigos subterrâneos. Os ataques, as emboscadas e flagelações aos aquartelamentos moldaram grupos de jovens em autênticas famílias porque sabiam que dependiam uns dos outros tal como os marinheiros num navio. Todos sabiam a vida de cada um, muitos eram analfabetos e eram os camaradas que liam e escreviam as missivas de e para a família. Foi esta amálgama de vivências que levou esses jovens, tornados homens, a reunirem-se anualmente, nos anos imediatos, em convívio para celebrarem o seu regresso, convívios que hoje, decorridos cinquenta e mais anos, continuam a juntá-los e às suas famílias.

Nenhuma guerra é um lugar bom para se viver!

Muitos dos primeiros homens a irem para a guerra em Angola têm hoje oitenta e mais anos porque depois de saírem da tropa foram de novo chamados para irem para a guerra e continuam a juntar-se sessenta anos depois! Aqui deixo a minha singela homenagem a esses VALENTES.

Os convívios foram o mote para eu escrever estas linhas.


Muitos veteranos ainda são tratados pelos camaradas pela alcunha do tempo da guerra
Realizam-se convívios de veteranos por todo o país, cada grupo referente a uma unidade militar, reunindo-se anualmente em locais diferentes conforme a morada de cada organizador, ficando esses locais combinados em cada ano para o ano seguinte.

Nota-se que quantas mais dificuldades passaram essas unidades militares mais unidos se mantêm hoje os veteranos. Por exemplo as companhias de comandos juntam quase todos os seus elementos e, como é sabido, os comandos só atuavam em situações limite.

Saliento que as informações quanto às unidades militares da marinha e da força aérea não estão facilmente disponíveis, apesar dos meus esforços junto desses ramos das forças armadas não consegui obtê-las. Por outro lado, a quantidade de unidades militares da marinha e da força aérea foi muito inferior à quantidade de unidades mobilizadas pelo exército. Assim, a quantidade de convívios também é inferior e não são publicitados como acontece com os veteranos do exército. Eu sei que existem mais convívios mas não tenho informações válidas acerca dos mesmos.

Creio que a amostra estatística, para o fim em causa, é representativa da realidade. Apesar de ninguém saber ao certo quantos convívios acontecem em todo o país durante o ano, constatei a existência de muitos mais mas sem a informação útil para este trabalho. Muitos veteranos de muitas unidades militares não voltaram a encontrar-se, outros têm o contacto de apenas alguns camaradas. Recebi informação de sete companhias que nunca fizeram convívios. É pena porque só temos uma vida e já muito curta.

Em cada convívio os familiares são mais do que os veteranos. Alguns já levam os bisnetos.

Esta análise é feita no pressuposto que os números fornecidos pelos veteranos estão certos ou muito próximo da realidade. Por outro lado, as unidades militares consideradas são só as do exército, mas não todas. Creio que podemos multiplicar por cinco os valores de despesa anual, considerada nesta análise, atendendo à quantidade de unidades militares envolvidas na guerra e a que muitos convívios nem são anunciados por ficarem combinados de uns anos para os outros.

Só no site dos “veteranos da guerra do ultramar” foram publicitados os convívios constantes na tabela C.

Considerando os 4088 veteranos e outros tantos familiares, a uma média de 30 € por cada refeição, dá cerca 245.280 €. Há a acrescentar a este valor as despesas de deslocação e alojamento as quais são superiores ao valor da refeição, pelo que a despesa global, só dos convívios de que tive informação válida, rondará o meio milhão de euros por ano.

Como estes valores se referem apenas a uma pequena parte dos convívios, creio que os valores globais serão superiores a dois milhões de euros.

Podemos afirmar que o impacto destes valores sobre a economia do país não é significativo, mas é de facto significativo para os restaurantes, por todo o país, onde decorrem estes encontros. São muitas vezes estabelecimentos com gestão familiar ou em espaços de entidades sem fins lucrativos. A minha experiência é de que existem restaurantes que não querem receber estes encontros. Houve um que me pediu 55€ por pessoa, em 2008, o que indicia que não estava interessado no negócio.

O grande impacto dos convívios dá-se sobre os próprios veteranos. É um avivar de memórias, é um exorcizar de vivências, de recalcamentos, de fantasmas, de frustrações e um repensar nos prejuízos, não contabilizáveis, na vida pessoal motivados por passarem três anos no serviço militar de forma obrigatória, enclausurados na guerra. O serviço militar, naquela época, serviu para melhorar a socialização de cada individuo, em especial os jovens do interior, e a guerra ajudou a perceber o papel que cada um desempenha na sociedade.

Ao fim de alguns anos os convívios são autênticas reuniões de família. Fala-se de tudo excepto de política, acompanha-se as felicidades e infelicidades de cada um ao longo do tempo, agora que todos temos mais de 67 anos, todos os anos falta mais um. É a vida.

É significativo que muitos veteranos ainda são tratados pelos camaradas pela alcunha do tempo da guerra, e isso implica uma carga emotiva muito grande que os faz reviver o passado.

Houve companhias formadas com um ou dois rapazes de cada concelho, pelo que hoje quando se reúnem estão sempre representados muitos concelhos e distritos do país. Tal como enquanto militares, muitos tiveram a oportunidade de conhecer usos e costumes de outras regiões, hoje essa troca de culturas regionais continua o que conduziu, e conduz, a uma maior homogeneização da sociedade.

Quando olhamos para trás no tempo custa-nos ver que fomos para a guerra enganados e continuamos a ser mal tratados enquanto veteranos de guerra. Talvez alguém esteja à espera que morram ‘mais uns quantos’ para depois muito ‘bondosamente’ distribuir mais umas migalhas pelos veteranos que restem.

Fica aqui este apontamento. Eu, como autor e testemunho, quero agradecer a todos aqueles que colaboraram com informações simples mas preciosas para que este trabalho pudesse existir.

Deixo, com carinho, a minha singela homenagem a todos aqueles que já partiram.

(Daniel Graça )– BCAÇ 2929 – Guiné 70/72
Lic. em Economia pelo ISEG – Lisboa



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

"O TOYOTA VEIO PARA FICAR"

Alcunhas que todos nós tivemos e com a qual convivemos na vida militar.
Toyota aplicou-se a um camarada nosso, que tinha como função alimentar alguns bicharocos que por lá tínhamos, mais em concreto os porcos que eram alimentados com as sobras dos nossas lautas refeições.
Frederico Santos-Calisto-Toyota


Passados 45 anos encontrou-se com o Frederico Santos e a velha máxima ainda se mantém: " O Toyota veio para ficar".


Toyota-Frederico Santos

domingo, 13 de outubro de 2019

HOMENAGEM



Em homenagem a todos os camaradas que tombaram em solo africano e não voltaram a abraçar seus familiares. Uma revolta imensa imerge do meu coração por sentir quão injustiçados fomos por toda uma classe politica, que nos utilizaram como carne para canhão! Abraço a todos os resistentes que tentam reavivar memórias que por vezes se perdem no tempo.






quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Alunos do 12.º ano vão passar a discutir a Guerra Colonial


Somos poucos para dar voz a um capítulo da nossa história e que não pode ser esmagada pela inércia de uns tantos senhores de jaqueta. As lágrimas que todos nós derramamos em momentos difíceis e que tivemos que ultrapassar, terão que servir para lavar o sangue perdido por muitos dos nossos companheiros. A história faz-se de momentos passados, este foi um deles! Um abraço companheiros de jornada....

nova disciplina, cuja criação foi anunciada esta segunda-feira, organiza-se em torno de quatro grandes temas, entre os quais Passado Doloroso. É neste âmbito que vai ser possível discutir a Guerra Colonial portuguesa (1961-1974). “Estamos no ponto exacto para debater este assunto na sala de aula”, acredita o presidente da Associação de Professores de História (APH), Miguel Barros, elogiando a novidade que o Ministério da Educação pretende introduzir no próximo ano lectivo. Este docente acredita que os cerca de 50 anos que passam desde essa época são “o tempo certo” para que seja possível olhar criticamente para um facto histórico, destacando que há “cada vez mais relatos e trabalhos” sobre aquele período, que justificam o seu tratamento no ensino secundário.“O desconhecimento da realidade histórica pode conduzir à instrumentalização do passado”, justifica a Direcção-Geral de Educação no documento com as aprendizagens essenciais de História, Culturas e Democracia, que foram publicadas esta segunda-feira

segunda-feira, 24 de junho de 2019

GUERREIRO DE UMA VIDA

Louvor na guerra pela sua coragem e determinação, e na sua vida um homem de causas nobres. Os homens de H grande serão sempre dignos de louvores pela sua lealdade para com os outros!




José Carlos Ventura Almeida Coelho



terça-feira, 11 de junho de 2019

HONRA E GLÓRIA


Caçadores 3411.

Armando Silva de Jesus
Soldado Atirador de Infantaria, n.º 17320271
Companhia de Caçadores 3411
(Batalhão Independente de Infantaria 19)




 Embarcou no NTT «Vera Cruz», no dia 31 de Julho de 1971, com destino àquela Província Ultramarina.
Faleceu, no dia 22 de Janeiro de 1973, a norte do Songo, região de Quivuenga, vítima de ferimentos em combate,
Está inumado na campa n.º 23, do Talhão Militar, do cemitério de Santa Ana, em Luanda, Angola.
Cruz de Guerra, de 3.ª classe
(Título póstumo)



Os restos mortais de pelo menos 1.000 antigos militares portugueses que morreram em Angola entre a I Guerra Mundial e a guerra colonial, estão sepultados em dois cemitérios da província de Luanda, segundo um levantamento das autoridades locais.

O ministro da Defesa de Portugal, João Gomes Cravinho, que realiza desde terça-feira uma visita de trabalho de três dias a Luanda, visitou hoje o cemitério do Alto das Cruzes, depois do encontro que manteve, terça-feira com o ministro angolano dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, João Ernesto “Liberdade”, com o qual abordou o processo sobre a homenagem que as autoridades portuguesas pretendem fazer aos militares que morreram em Angola.

3.ª CLASSE (Título póstumo)


Transcrição do Despacho publicado na OE n.º 7 — 3.ª série, de 1974.


Agraciado, com a Cruz de Guerra de 3.ª classe, nos termos do artigo 20.º do Regulamento da Medalha Militar, promulgado pelo Decreto n.º 566/71, de 20 de Dezembro de 1971, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola, de 9 de Agosto de 1973, a título póstumo, o


Soldado de Infantaria, n.º 17320271, Armando Silva de Jesus, da Companhia de Caçadores n.º 3411 - Batalhão Independente de Infantaria n.º 19.


Transcrição do louvor que originou a condecoração.


(Publicado na OS n.º 73, de 07 de Setembro de 1973, do Quartel General da Região Militar de Angola (QG/RMA):


Por seu despacho de 9 de Agosto de 1973, o Comandante-Chefe louvou, a título póstumo, o Soldado de Infantaria, n.º 17320271, Armando Silva de Jesus, da Companhia de Caçadores n.º 3411 - Batalhão Independente de Infantaria n.º 19, porque, tendo o inimigo montado uma emboscada à equipa de combate onde ia integrado, da qual resultou ter recebido ferimentos muito graves, de que veio posteriormente a falecer, conseguiu incutir espírito de agressividade a todos os seus camaradas, demonstrando grande coragem debaixo de fogo inimigo, galvanizando-os com o seu exemplo e incitando-os a que levassem a sua arma para que o inimigo dela não se apoderasse.


Na sua actuação debaixo de fogo inimigo revelou espírito de sacrifício, sangue-frio e serena energia debaixo de fogo.


O Soldado Jesus, que era já elemento estimado e considerado pelos seus camaradas e superiores, creditou-se como um combatente valoroso que muito honrou e prestigiou o Exército que serviu abnegadamente. 



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

QUEM FOMOS?




Todos os combatentes partiram, mas muitos deles não tiveram o privilégio de chegar. Tombaram na terra vermelha manchada pelo sangue que derramaram. Hoje a um ritmo alucinante estamos a cair como folhas caducas que se desprendem da árvore frondosa que lhes deu vida.


sábado, 19 de janeiro de 2019

O AMOR DE MÃE

“Pedia a V.ª Ex.ª, pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho. Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei onde hei-de respirar. O nome do meu filho é Francisco da Luz Carloto.”
Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes constatam na sua obra que, das 2238 baixas ocorridas entre 1961 e 1966, na altura, só foram trazidos para Portugal 326 corpos, o que representava apenas cerca de 15% do total de mortos desse período. Era visível que os custos eram o grande obstáculo porque de Moçambique, onde a despesa era maior, só vieram 5,5% dos corpos, de Angola 12,9% e da Guiné, por ser um pouco menos oneroso, um pouco mais, 27,2%.




quarta-feira, 10 de outubro de 2018

OS BATE ESTRADAS (AEROGRAMAS)

Foi, incontestavelmente, durante o longo período de duração da Guerra Colonial, o meio de comunicação que mais encheu as Estações de Correios, os porões dos aviões, os altos e espelhados edifícios do SPM (Serviço Postal Militar), as malas de cabedal e os braços dos carteiros, espalhando-se por cidades e pelas aldeias mais recônditas. O Aerograma foi escrito e lido à mesa do rico e do pobre. Passou por cadeias e hospitais. Aos civis era distribuído na cor azul e aos militares na cor amarela. O seu custo avulso era de $30 (três tostões). Correu mundo este papel fino e desdobrável portador de notícias, sentimentos, alegrias e tristezas. Para além das letras, muitas vezes esborratadas pelos salpicos inevitáveis das lágrimas descuidadas, neles eram inscritos e desenhados lindos poemas e figuras, as quais expressavam os mais diferentes estados de alma.
Acabariam guardados em baús, gavetas ou malas, retendo sufocados, para a eternidade, memórias da verdadeira, da autêntica história vivida por toda uma população que sofreu na alma e na carne as dores intermináveis da guerra. Muitos deles escondiam por detrás das metáforas ou frases subentendidas coisas que se receava viessem a ser alvo da censura pidesca.








  

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Ganhar Dinheiro...uma vida


Fomos para a guerra sem pensar em dinheiro, queríamos era acordar no dia seguinte a mexer e com saúde, no entanto no final de cada mês sabia sempre bem receber uns tostões. Existia uma disparidade de valores entre os praças, sargentos e oficiais, no entanto nunca foi motivo para discórdias, falava-se mas objectivamente o importante era estarmos e manter-nos vivos.
Como termo de comparação aqui deixo um recibo do meu vencimento em Angola e um posterior já na vida civil como o meu primeiro emprego.......





segunda-feira, 23 de julho de 2018

A "NOSSA" CASA.....

O município do Songo dista a 40 quilómetros a Norte da cidade do Uíge, tem dois mil 800 quilómetros distribuídos em uma comuna (Kinvuenga), 13 regedorias, 81 aldeias, 14 bairros e conta com uma população de 62 mil 362 habitantes, segundo os dados do Censo Geral da População e Habitação realizado em 2014.
Neste local, hoje completamente degradado vivemos 27 meses da nossa vida. Um longínquo percurso cheio de imponderáveis, visto que vivíamos um dia de cada vez, o amanhã era incerto!




sábado, 21 de julho de 2018

LAÇOS de SANGUE








Os tempos mudam, e as gerações também, só os sentimentos e as emoções perduram. Um retrato de uma época que deixou mazelas profundas em jovens que sonhavam com um mundo diferente, para melhor.....

segunda-feira, 7 de maio de 2018

METAMORFOSES

Metamorfose é a mudança considerável que ocorre no caráter, no estado ou na aparência de uma pessoa.
Ilídio Fernandes Aguiar
1º Cabo Atirador
01641271





Aconteceu com todos os que estiveram na Guerra e de lá regressaram com vida.
Hoje ao fazermos um retrocesso no tempo, ficamos surpreendidos com a transformação efectuada através dos tempos. Acabamos todos da mesma maneira no entanto não é fácil encararmos a nossa capitulação. Abraço forte a todos aqueles que ainda "resistem".....

sábado, 5 de maio de 2018

MÃES DE UMA GUERRA

Hoje velhos e cansados, só temos recordações e saudade de todos aqueles que perdemos ao nosso redor clamando por um último pedido...Mãe entrego-me em teu regaço! Este país desmembrado que desprezou toda uma juventude, que verteu o seu sangue em terras de África, não mereceu o nosso esforço!


 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

"FLECHAS"

MPLA chacinou um quarto dos "Flechas" após fim da guerra colonial em Angola revela historiador

Cerca de 25% dos mais de 2.000 "flechas" angolanos, que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola, indicou hoje um historiador norte-americano.

John P. Cann, entrevistado pela agência Lusa a propósito do seu mais recente livro "Os Flechas -- Os Caçadores Guerreiros do Leste de Angola -- 1965/74", publicado pela editora Tribuna da História, indicou que só numa operação, realizada em Mavinga, na província de Cuando-Cubango (sudeste), as forças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) abateram 130 bosquímanos.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 ABRIL 2018



Sabias que antes de 25 de Abril de 1974 Portugal vivia num regime de ditadura em que a liberdade estava vedada aos portugueses? Foi na madrugada desse dia que o movimento dos capitães, encabeçado por Salgueiro Maia, saiu à rua e colocou um ponto final no regime. A senha de código para mostrar que o movimento estava em curso foi dada no Rádio Clube Português através de uma música que que havia vencido o Festival da Canção, logo não levantava suspeitas.
Quase não houve tiros ou confrontos, algo raro num golpe militar, o que fez com que a revolução portuguesa ficasse conhecida como a revolução dos cravos, pois estas perfumadas flores vermelhas foram colocadas no cano das espingardas e distribuídas pelo povo que enchia as ruas numa explosão de alegria. Marcelo Caetano foi preso e daí partiu para o Brasil, a PIDE – a polícia política com a função de vigiar e torturar– foi extinta e a festa continuou na rua até ao 1º de Maio, celebrado pela primeira vez em liberdade.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A FERRUGEM

Espirito de equipe é superar todas as dificuldades juntos, e construir uma base de resistência em prol do grupo.
Tive o previlégio de entrelaçar emoções com todos os que me acompanharam durante 27 meses no Songo, deram o melhor que podiam e sabiam.
Quando chegámos ao Songo só um  Jeep willys funcionava, os Umimogs 411 e uma Mercedes a cair de podre e um Unimog 404, tudo encostado ás boxes. Durante uma semana o Velez(soldado mecânico) um mestre na matéria, e os menos habilitados, lá conseguimos colocar alguns Unimogs operacionais.
Devo realçar com toda a justiça os condutores, que faziam das tripas coração para levar a bom porto os seus camaradas por picadas quase impenetráveis, onde o Sol teimava em não assomar. As percentagens de inclinação eram assustadoras, nas subidas por vezes uma 1ª velocidade e nas descidas era encomendar a alma a Deus, visto os travões por vezes não actuarem devido aos 12homens que transportava acrescido de todo o armamento que seguia no mesmo...acreditem os milagres existem!
Um obrigado a todos os CARS (Condutores Auto Rodas) e aos MARS (Mecânicos Auto Rodas).

                        18581270-Albano C. Laranjeira
                         01227070-Inácio P. Oliveira

                        05182670-João P. Gouveia
                        07250170-Óscar T. Ribeiro
                         03981770-José A. Velez
                        05782570-José M. Beja
                       15720170-Fernando F. Neves
                      15728070-António D. Mesquita
                       15747070-José A. Lamarão
                     15856570-José M. Vaz Gonçalves
                   15862070- Luís J. Moreira Oliveira
                    15869170- José Hermínio Correia
                   15895070- Luís A. Santos Anselmo
                   15856270- João R. Moreira(Apúlia)
                    15781370-José M. Valente Calisto
                     15758870- Joaquim S. Romão
                       15953670-Celino F. Pereira
                         15763470- Assis F. Nel


ASES DA PICADA

Sempre longe dos asfaltos
Com viaturas "fanadas",
Os bravos condutores-auto.
Eram ases nas picadas

Bastante mal preparados
Para a difícil missão
Esforçados, dedicados,
Lá cumpriam a comissão

As viaturas mais novas
Eram p'ra grandes certames
As outras, para mato e covas,
Sempre presas por arames

Pneus carecas na lama,
Qual cabeça de sargento
Que ralha, mas que não trama,
Sendo apenas rabugento

Travões sem ferodo nos calços,
Caixa com folgas à farta
Aprendemos com percalços
Passar da segunda para a quarta

Honra aos camaradas tombados
Por esta, ou aquela razão;
Uns por "turras" baleados
Outros de volante na mão.

António Martinho(Vivências Vividas)





sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ABANDONADOS....



Durante os primeiros seis anos da guerra colonial, o Estado só pagava o regresso de militares vivos. Permanecem até hoje enterrados em África cerca de 1500 corpos. Muitas famílias já os esqueceram, algumas ainda não. A arqueóloga Conceição Vitoriano Maia foi à Guiné desenterrar o irmão. Otília Gonçalves só quer trazer “o mano” de Angola.


“Pedia a V.ª Ex.ª, pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho. Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei onde hei-de respirar. O nome do meu filho é Francisco da Luz Carloto.”

Sem querer, a carta de uma camponesa alentejana que não sabia escrever ajudou a mudar um pormenor da história.
Maria Florinda da Luz tinha sido informada por telegrama que o filho tinha morrido na guerra em Moçambique a 19 de Janeiro de 1967. Se o quisesse trazer, teria de pagar 12 mil escudos, o que equivaleria, aos preços de hoje (de acordo com o conversor da Pordata), a cerca de 4 mil euros. Era impossível, mas a mãe do soldado sentiu que, à sua maneira, tinha de fazer alguma coisa.
“A minha sogra era uma mulher sem estudos, mas bem resolvida”, lembra ao P2 a nora, Brígida Leitão. Partiu dela a ideia de ir ter com quem sabia, “o senhor presidente da junta”: “Ela a chorar disse-lhe tudo o que sentia, o que tinha no coração” e ele lá organizou e arrumou as frases à sua maneira, que assim seguiram, em tom submisso, para o ministro da Defesa, uma ousadia nos tempos que corriam.


Desde que a guerra tinha começado, em Angola em 1961, que o Estado português só pagava a ida e o regresso aos militares vivos, não o dos mortos. Quem queria trazer os seus tinha de pagar e quanto mais longe morria o militar mais caro: trazer um corpo de Moçambique era o mais caro; da Guiné, por ser mais próximo, ficava um pouco mais barato, 7500 escudos (cerca de 2500 euros), lembra o livro de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, Os Anos da Guerra Colonial 1961.1975 (QuidNovi), que cita a carta da mãe e explica as suas repercussões.
“A transladação era incomportável para a maioria das famílias, era uma sociedade ruralizada, com hierarquias, com uma desigualdade mais nítida e aceite do que é hoje”, explica Carlos Matos Gomes. O que, na prática, acontecia é que eram as famílias dos oficiais quem mais meios tinha para pagar pelo regresso dos seus mortos. “A transladação era para uma elite social”, constata o autor e coronel na reserva.


Ernestina da Silva — que só este mês, 54 anos depois da morte do pai em Angola, em 1963, conseguiu transladá-lo para Portugal — não sabe se, na altura, foi sequer dada a possibilidade à mãe de pagar os 10 mil escudos que eram exigidos à família, o que equivaleria a cerca de 4000 euros aos preços de hoje. Teria sido indiferente. Era impossível angariar essa quantia. A mãe vivia da agricultura, plantava batatas, tomates, faziam azeite e vinho. Teve aliás de emigrar para a Alemanha, deixando a filha com oito anos a ser criada pelos avós. Os pais do soldado morto também pouco podiam fazer, eram agricultores, nove filhos. Nunca houve campa.
Ainda devolveram à família a aliança e o mostrador do relógio Sigma que o soldado António Lopes da Silva usava quando foi morto, “que veio cheio de sangue”, e que Ernestina conserva até hoje dentro de uma caixinha de veludo.


A grande maioria dos mais de cerca 1500 militares portugueses (de acordo com o levantamento mais recente feito pela Liga dos Combatentes) que permanecem até hoje

“Eu revi-me na pele da Tina. Tenho muito orgulho de ela ter conseguido.” Otília Gonçalves, 54 anos, conheceu pela Internet a filha que trouxe o pai de Angola, foi de propósito de Braga a Lobão da Beira para o funeral. Anda há cerca de dez anos a tentar trazer “o mano” de Angola. O irmão, o mais velho de 11 filhos, morreu no início da guerra, a 15 de Outubro de 1961, junto a uma fazenda chamada “Tentativa”. Embora nunca o tenha conhecido sem ser de foto, a presença da sua ausência marcou-lhe a infância na aldeia de Ponte de São Vicente, distrito de Braga. “Eu, pequenina, ia dar com a minha mãe a chorar sentada no chão, atrás do milho. ‘Sai daqui’”, ordenava à filha. Não queria que a sua dor fosse vista. Foi assim durante anos. No Verão, na altura de arejarem as roupas, do fundo de uma arca de madeira saía também o livro da primária “do mano”. É a única dos irmãos que não desiste. “Os meus irmãos acham que já não há nada para trazer.” Para Otília, há algo inacabado. Só receberam um telegrama a dizer que tinha morrido de acidente, perto de Nambuangongo, “muito simples e frio, ponto final. Se quisessem o filho, tinham de pagar. Era impossível. Tinham de vender a casa e as terras, claro que não dava”. Chamava-se Aquilino da Silva Gonçalves, era segundo cabo do Exército, ia fazer 21 anos.

Escreveu cartas e emails ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, “a todos os órgãos”. “‘Acusamos a recepção, com os melhores cumprimentos.’ Mais nada. Tenho tudo arquivado.” “Quero trazer o meu irmão, quero que os meus pais descansem.” “Há muita gente que já não tem família mas há muita gente que ainda os quer trazer. Eu preciso.”

OUTRORA

01 de Março de 2008 A construção do blogue da Onzima, teve como intenção dar a conhecer a nossa vivência por terras de Angola. Dei a conh...