quinta-feira, 11 de maio de 2017

Mãe,a guerra


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Viram-nos partir. Por entre as lágrimas roubadas a um coração despedaçado, cravaram na memória o último sorrido brotado no último instante do último adeus. E eles foram. Olhavam o longe e procuravam sentir o bafo daqueles filhos paridos com dor, com amor, com a esperança de os verem serem homens, pais capazes de lhes darem os netos ansiados.
Viram-nos partir. Por entre a desolação do tempo consumido nas sombras de dias intermináveis, esperavam notícias. Às vezes apenas uma ou duas frases. “Mãe, está tudo bem.” “Mãe, hoje vou sair para uma missão.” E, afinal, nada estava bem. E, afinal, uma bomba, uma mina perdida, uma bala desgarrada cobravam-lhes o mundo. Cobravam-lhes a vida.
Longe, as mães, esperavam. Às vezes chegavam cartas. Muitas não sabiam lê-las. Esperavam pela noite. Aguardavam a chegada de uma vizinha, de um outro filho. Só então, naquele matraquear de palavras construídas a partir da escrita vinda de um além indefinido, percebiam a dimensão da tragédia.
Viram-nos partir. Nunca os viram regressar. Nunca a dor as abandonou. Nunca aqueles corações voltaram a experimentar a paz. Nunca aqueles rostos reconstruíram a memória dos dias felizes. Nunca aquelas lágrimas deixaram de lhes escorrer pelo rosto como punhais afiados. A dor é uma peçonha agarrada ao corpo. E o corpo chora. E o corpo daquelas mulheres vagueia no presente como um fantasma ancorado na memória de um passado cruel.
São mães cujos filhos morreram em África, numa guerra colonial prolongada para lá de toda a racionalidade. Tudo começou a ganhar uma outra dimensão quando no dia 4 de fevereiro de 1961 o MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola desencadeia um ataque à cadeia de Luanda. Morrem sete polícias e tudo muda. No dia 15 de março do mesmo ano, um outro passo é dado pela UPA - União das Populações de Angola. A norte, numa área que abrangia os distritos do Zaire, Uíje e Quanza-Norte, acontece um ataque tribal e daí nasce um massacre de populações brancas e trabalhadores negros originários de outras regiões.
Foram treze anos de guerra, sistematicamente condenada pela ONU e distribuída por três frentes: Angola, Guiné (a partir de 1963) e Moçambique (a partir de 1964). O 25 de Abril de 1974 coloca um ponto final no sofrimento de uma juventude portuguesa cujo futuro aparecia sempre condicionado pelo terror da partida para África. Alguns não compareciam às inspeções, outros desertavam. Muitos deles por rejeitarem a participação num conflito que condenavam. Do qual discordavam, numa altura em que praticamente toda a Europa colonial já se desfizera dos seus impérios. A maioria, porém, integrava os contingentes gerais.
Partiam. Não sabiam se regressavam. Milhares morreram na vastidão de África. Muitos outros milhares ficaram feridos. Alguns com mazelas físicas ou psicológicas para o resto da vida. Deles se fala com frequência. E na valorização desse sofrimento é demasiadas vezes esquecido um outro sofrimento. O das mães que choram em silêncio.
Fomos procurá-las. Encontrámos mulheres como Delta Monteiro, 90 anos, de Valpaços. De três filhos, só o mais velho foi para a guerra. Morreu no dia 25 de maio de 1973. Faltavam-lhe apenas dois meses para receber a guia de marcha e regressar ao convívio com aquela mãe que sempre viveu no campo, a vender batatas e hortaliças.
“Quando soube que o Carlos tinha de ir para a guerra, foi como uma facada que me deram”, diz Delta. Não sabe explicar, mas um pressentimento fê-la saber que nunca mais aquele filho regressaria com vida. A memória daquela mãe destroçada ainda hoje se fixa “naqueles olhos tão lindos, castanhos, brilhantes e grandes”. Nunca mais teve direito a sentir a força daqueles braços que lhe rodeavam o corpo e a apertavam com força mas também com doçura.
Todos as semanas, Carlos enviava um aerograma à mãe. O último foi expedido no exato dia em que morreu. Dizia apenas: “Vou ser rápido. Está a chegar a avioneta e eu não quero deixar a mãe sem notícias”. Aquela mãe jamais teria querido saber aquela notícia.
O general Spínola, ou alguém por ele, dirigiu uma carta a Delta Moreira. Para lhe dizer que o filho era um herói e morrera pela pátria. A carta funcionou como salvo conduto para o segundo filho não ir para a guerra. Mas aquela mãe não queria uma carta do general Spínola. Não queria um herói. Só queria ter em casa o José Carlos.
Tal como Helena Cardoso, 94 anos, que foi padeira em Rio Tinto, Gondomar. Sabia de um saber nunca ensinado que “a guerra era a morte”. Mãe de cinco filhos, sentiu-se como que esventrada ao ver o mais velho, José Moreira Regadas, partir para Angola. Esperava notícias, mas as notícias não chegavam. O primeiro aerograma demorou uma eternidade até aterrar em Rio Tinto. Helena chorava. Chorava muito por nada saber de José. Até que um dia lhe chega uma carta. Dizem-lhe que José fora ferido e iria regressar. O José que regressou não era o mesmo José que partira. Atingido por uma mina, perdera toda a autonomia. Não se mexia. “Tempos difíceis, pesados como chumbo”, recorda Helena.
Cada história é um novo poço de tristeza. Às vezes são lutos eternos, os vividos por mães como Rosa Jado, 99 anos. Falar do filho Domingos é, ainda hoje, uma impossibilidade. Domingos foi mobilizado para Angola. Regressou em muito mau estado. Acabou por morrer. Rosa começa por aceitar conversar. Só que, para Rosa, a dor é tamanha: verbaliza a palavra “Angola” e nada mais a retira do pranto em que esmorece. Não há mais nenhuma palavra. Porque nenhuma palavra consegue descrever o sofrimento destas mulheres.
Entre 1961 e 1974, a ditadura portuguesa fez sangrar o país em três frentes de combate colonial. Segundo números oficiais, quando se chega a 1974, ano em que foram mobilizados 150 mil efetivos militares para o esforço de guerra em África, entre 7% a 10% da população portuguesa, e mais de 90% da juventude masculina, tinha sido de alguma forma envolvida na guerra.
Em 13 anos morreram mais de 8 mil soldados e ficaram feridos ou incapacitados mais de 100 mil portugueses. Os danos psicológicos são difíceis de contabilizar, mas alguns especialistas da área da psiquiatria apontam para mais de 140 mil portugueses psicologicamente afetados pela guerra.
Dados do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) permitem concluir que morreram 8.831 militares portugueses, dos quais 4.027 em combate. A maioria das mortes ocorreu em Angola (3 455). Seguem-se Moçambique (3 136) e a Guiné (2 240).
Aqueles números, ao referirem apenas os militares mortos, estão longe de traduzir a realidade, uma vez que não incluem as vítimas mortais de civis brancos e negros, tanto entre os guerrilheiros dos movimentos de libertação como entre a população civil.

sábado, 6 de maio de 2017

O ESQUECIMENTO.....

«A escolha da designação da guerra que os portugueses travaram entre 1961 e 1975 não é inocente e, como se tornou um motivo de polémica, ainda menos inocente é. No entanto, penso que não é tão importante como isso, nem precisa de suscitar grandes exaltações, à medida que o tempo vai assentando. Na verdade, a guerra no Ultramar foi uma guerra colonial, e não há modo de lhe dar a volta se tratarmos apenas do conteúdo. Começou como guerra colonial, desenvolveu-se como guerra colonial, gerou as tensões no Ultramar e na metrópole típicas de uma guerra colonial, atingiu soldados, colonos brancos e guineenses, moçambicanos e angolanos, como uma guerra colonial, levou à queda de uma ditadura por ser uma guerra colonial, logo perdida à cabeça e sem solução militar, acabou como uma guerra colonial, e continuou, nas suas sequelas de guerra civil, como acontece com os efeitos de uma guerra colonial.

Para quem se lhe opôs, desde os desertores, os refractários, os militantes contra a guerra nas escolas e fábricas, os partidos clandestinos que combatiam a ditadura, ninguém a designa a não ser como guerra colonial. Para os nacionalistas africanos que combateram com armas as Forças Armadas Portuguesas, também não lhes passa pela cabeça chamar à guerra outra coisa que não colonial. Penso, com o risco deste tipo de previsões, que ficará na História como guerra colonial, pelo simples facto de ter sido… uma guerra colonial.

Mas há outro lado: muitas centenas de milhares de portugueses combateram na guerra, muitas mães, namoradas e esposas conheceram a espera sobressaltada e o sofrimento com mortes, feridos e feridas, algumas das quais nunca sararam. Ouvi recentemente alguns depoimentos de soldados, e das mulheres que esperavam, e percebe-se muito bem porque a designação guerra colonial os incomoda, mesmo que, ao falarem da sua experiência militar, se perceba até que ponto foram forçados a fazerem-na, sofreram ao fazerem-na, e olham para ela com uma perspectiva muito mais crítica do que muitos opositores à guerra são capazes de ter. Por uma razão simples, eles fizeram-na e precisam, pela sua dignidade e identidade, que o seu esforço e risco não seja minimizado ou apoucado, pela parte que lhes cabe na condenação moral que tem a designação de guerra colonial. Eu nunca designaria a guerra a não ser como colonial, se à minha frente estivessem os seus responsáveis políticos e militares, nem os seus defensores actuais, mas não me incomoda vê-la designada como sendo do Ultramar por estes homens e mulheres. Até porque, de todos os que ouvi, nenhum achava que a guerra tinha sido justa, nenhum correu para a guerra porque acreditava nas virtudes do império, nenhum escondia as violências e os excessos e mesmo alguns sublinhavam como a guerra lhes destruiu quer a vida que desejavam ter, quer a que tiveram.

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É também por isso que penso que o Estado e a comunidade lhes devem aquilo que nos países que conheceram grandes guerras, como os EUA e o Reino Unido, é o reconhecimento dos seus veteranos, e o esforço de os apoiar na sua vida tantas vezes difícil. E honrá-los como devem ser honrados porque a justiça e a injustiça das guerras que um país trava não ficam como julgamento moral dos que as combateram, mas sim naqueles que as decidiram.»